O Gaúcho Martin Fierro
por Isabela França
A epopeia d’O Gaúcho Martín Fierro, escrita em duas partes, em 1872 e 1879, por José Hernández, é patrimônio cultural da Argentina. Suas quase 400 estrofes narram em rima e métrica a vida do gaúcho do pampa argentino que perde sua liberdade ao ser convocado à força para servir ao exército. Vítima da arbitrariedade, Fierro, em pouco tempo, deserta e, ao regressar para o lar, não encontra a casa e a família. Desesperado, o desertor e payador – trovador – torna-se um fora-da-lei.

Elementos líricos e satíricos, em unidade de forma e conteúdo, sintetizam de maneira magnífica a representação de um homem em dada época e lugar. Ao tratar a vida, a morte, a injustiça, o sofrimento, a crueldade, a violência, a liberdade e o destino, Martin Fierro se destaca na literatura argentina do final do século 19, tanto pela temática quanto pela linguagem popular.
A mais nova versão de Martín Fierro, do paranaense Ciro Correia França, chega aos leitores em caprichada edição da Travessa dos Editores, com patrocínio da Itaipu Binacional. Autodidata, assim como Hernández, Ciro França deu a seu Fierro uma ginga bem baleanceada, preservando em muitos momentos o linguajar mestiço de nossa fronteira. A edição de 608 páginas, a primeira bilíngue ilustrada do Brasil, traz todos os 46 cantos de Martín Fierro muito bem interpretados pelo traço forte do desenhista e também paranaense Osvalter Urbinati.
“Traduzir um clássico é um ato de coragem, no que se incluem ousadia e risco. E se o livro é um épico, onde o erudito e o popular estão ligados como unha e carne, essa tradução pode ser considerada ainda mais atrevida”, diz o crítico de literatura e editor da obra, Mário Hélio Gomes de Lima.
Mário Hélio ressalta que cada tradução reflete tanto o texto original quanto o que há de autoral nas soluções que propõe com quem ele trabalha numa outra cultura e noutra língua. E se essas língua e cultura estão próximas – literalmente na fronteira – que é o caso do espanhol e do português, da Argentina e Rio Grande do Sul (e do Paraná), ainda mais difícil e verdadeiramente ‘épica’ é a façanha”, explica.
Os versos do Martín Fierro têm a métrica, o ritmo e o modo de rimar da poesia tradicional. Seus ‘parentes’ próximos são, portanto, o repente e o cordel, além das várias formas que assumiram canções e baladas na Europa medieval. Ciro França reuniu o conhecimento erudito dessas literaturas e o conhecimento das mais variadas versões do poema para fazer algo muito próprio e novo.
Apresentar o livro ao público, exigiu algo muito próprio e também inovador. A escolha do grupo O Círculo para a leitura pública de Martín Fierro foi pensada como a melhor alternativa para dar voz ao poema e, mais que isso, contextualizá-lo.
Ao ‘conversar’ com a obra do grande poeta regionalista gaúcho João Simões Lopes Neto e do antropólogo, historiador e escritor potiguara Luís da Câmara Cascudo, Martín Fierro torna-se ainda mais próximos de nós, brasileiros.
A leitura “Terras Inóspitas” foi concebida por Flávio Stein, diretor de O Círculo, e costura de maneira magnífica, ao encontrar similaridades e pontos comuns, as culturas brasileira e argentina.”
DADOS DE CATALOGAÇÃO
Coordenação
Isabela França
Edição
Mário Hélio Gomes
Capa
Gusto Editorial e Design / Manoela Leão e Rafael Zem
Projeto Gráfico e Diagramação
Gusto Editorial e Design / Manoela Leão
Assistente de Diagramação
Rafael Zem
Revisão
Roseanah França e Anita Legname
Ilustração
Osvalter Urbinati
Dados internacionais de catalogação na publicação
Bibliotecária responsável
Mara Rejane Vicente Teixeira
Hernández, José, 1834-1886.
O gaúcho Martín Fierro ; A volta de Martín Fierro /
José Hernández ; ilustrações de Osvalter ; tradução de Ciro Correia França. – Curitiba, PR : Travessa dos Editores, 2013.
600 p. : il. ; 16 x 23 cm.
Tradução de: El gaucho Martín Fierro ; La vuelta de Martín Fierro.
ISBN 978-85-64913
1. Poesia argentina. I. Osvalter (ilustrador). II. França, Ciro Correia, 1944-2011. III. Título. IV. Título: A volta de Martín Fierro.
CDD ( 22a ed.) Ar861